sábado, 12 de dezembro de 2009

A incômoda árvore de natal


Foto: Rogério Cassimiro/ UOL

Sob a foto de uma imensa árvore de natal colorida, na primeira página do meu provedor de internet, leio a legenda: Ponto turístico provisório, árvore de natal complica trânsito em SP.
A árvore foi colocada no local pela prefeitura de São Paulo, a maior cidade do País, em parceria com banco privado de renome internacional. Até aí, nenhum problema.
A enorme quantidade de famílias que têm procurado o ponto turístico, atraídas pelas músicas da árvore e pelo brilho dos enfeites não reclama da visão grandiosa que tem jeito de infância e tamanho novaiorquino.
Quem reclama são os motoristas, que gastam “mais 30 minutos” para chegar em casa à noite, cansados do trabalho estafante do dia inteiro. O trânsito não evolui nas cercanias da árvore. E o trânsito é o Freddy Krueger dos paulistanos!
É no trânsito, portanto, e não na árvore de natal, que reside um dos maiores problemas da cidade de São Paulo.
Há anos que o crescimento da frota de veículos da cidade é o caos. Constantemente, nos telejornais da manhã até a noite, o que se escuta é: “Trânsito complicado na cidade de São Paulo”...”O trânsito não flui na avenida X, por causa de uma acidente logo cedo...”.
Elevada, há tempos, à categoria de megalópole, a capital paulistana concentra todos os vícios das cidades imensas: as pessoas trabalham demais, o metro imobiliário é o mais caro do País, as distâncias fazem com que as pessoas saiam de casa pela manhã e voltem tarde da noite. Irritadas. Com o remorso pelos filhos que não veem crescer direito, com a falta de tempo para si mesmos, com o desespero de constatarem o crescimento não planejado do município, com a poluição sem sentido do ar, dos rios, do cotidiano.
Então, quando uma árvore de natal bonita e musical acontece em meio a uma praça, ao lado do parque Ibirapuera, ao invés do espírito de Boas Festas, ou do sentido de alegria e de esperança que vem com o Natal e o Ano Novo, alguns paulistanos pensam nela como um símbolo que veio para oprimi-los ainda mais em seu dia a dia insensato.
São Paulo é um caldeirão de contrastes sempre à beira de uma crise ou outra. É modelo para a economia do País, é Primeiro Mundo, é sonho (ainda) de tantos migrantes, é história, é cultura. Mas o paulistano está mais concentrando nas suas neuroses e depressões do que no orgulho que deveria sentir pelas maravilhas que possui.
E aí, em vez de repensar valores e não deixar que a loucura da cidade grande impeça um  tempo de belezas, prefere se entregar a novo estresse.
A árvore de natal vai durar menos de um mês naquela praça. Mês em que muitos estarão fora, em outras cidades, outros estados, celebrando o Natal e o Ano Novo. Mas o paulistano vai continuar a reclamar dos 30 minutos a mais que levará para chegar em casa. 
Porque as horas que gasta para chegar à praia, perdidas em congestionamentos gigantescos, não contam nem atrapalham. Porque as filas para assistir aos melhores shows de rock do mundo, ou aos jogos do São Paulo ou do Corinthians, não o incomodam. Porque com a corrupção, a poluição, o trânsito descontrolado e a vida sem qualidade ele já se acostumou.

Só não se acostuma é com a árvore...
Que atrai os que não têm carro ou helicóptero. Que faz felizes os que não têm dinheiro para os shoppings, para as compras, para as viagens. Que distrai por 30 minutos os que andam de ônibus. Que enternece o olhar, por uma noite apenas, dos que não têm comida, abrigo, nem cor em suas vidas. Que convida também os que possuem de tudo, mas não têm pressa de chegar aos lugares de sempre. Que aguarda, charmosa e agradecida, os que reclamam unicamente de mesmice e de vida em preto e branco.
Na vida, é preciso tempo para se dedicar ao encantamento. È esse o verdadeiro tempo.
Em que basta um coração desarmado, sem medo da simplicidade, sem pressa de voltar ao tédio.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Insanos preconceitos

Vejo no noticiário da meia-noite que uma universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, se recusa a entregar diplomas a alunos gordos.
Parece incrível, mas é verdade. Uma verdade feia, suja e triste.
Quando foi mesmo que inteligência, beleza e caráter começaram a ser medidos pela cor da pele, pela conta bancária, pela opção sexual ou pelo peso de um ser humano? Ah, acho que faz tempo! Mas nunca, antes, se ousou tanto. Nunca a loucura foi tamanha. E quanto mais a gente tenta entender ou explicar, mais se desespera na incredulidade.
Como é que alguém estuda, compra livros, se esforça, tira notas boas, enfrenta noites de sono e não tem direito a um diploma porque é gordo?! Gordo é contagioso? Gordo é sub-raça? Gordo é bicho? Gordo é perigoso?
Estados Unidos. País mais importante do mundo. Terra de todas as gentes. Onde os maiores cérebros são judeus, alemães, franceses, argentinos, japoneses, brasileiros. Onde os melhores taxistas são indianos e os melhores acompanhantes para idosos são filipinos. Terra de notícias com esta, de hoje à noite. Terra de gente hipócrita. De gente que fabrica e lança para o mundo as comidas e as bebidas mais calóricas, como os hambúrgueres e as Coca-Colas. E depois pune os seus próprios filhos com exigências tão absurdas!
Só que lá, na terra do Tio Sam, os tribunais existem para dizer não às aberrações. Lá, cada discriminado tem voz, lei, julgamento e direito a final feliz.
E aqui? Aqui, neste país de aparências, medos e preconceitos, quem nos defenderá de mentes tão pequenas? Quem nos garantirá que sejamos respeitados?
Brasil, reaja!

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Dor de alma

Google Imagens: óleo s/ tela de Guilherme de Faria, 60x80cm. Coleção particular, São Paulo.





Dor de alma devia poder ser curada com remédio de mãe.
— Tá doendo?
— Hum, hum.
— Quer que sopre?
— Hum, hum.
— Pronto! Passou?
— Falta um beijo...
E estaria tudo bem depois do beijo.
Mas dor de alma é enjoada. É uma dor espírito de porco. Quanto mais a gente geme, quanto mais a gente chora, quanto mais a gente encolhe, mais ela avança.
Precisa ser gente grande para aguentar dor de alma.
Gente grande com idade pequena, por exemplo, tem demais.
— Mãe, dá um pão.
— Tem pão não menino, se aquiete!
— Mas tô com fome!
— Bebe um tiquinho disto aqui, ó, que a fome passa.
Já gente grande com idade velha tem mania de esconder dor de alma de todo o mundo. Chamam isso de decência ou de orgulho. Deveriam chamar de bem-feito! Dor de alma é exibida, sempre querendo aparecer.
Conheço gente grande que sente dor de alma sorrindo; brinca, se distrai, disfarça. É gente gigante.
— Está triste?
— Nada!
— Mas está chorando...
— É gripe.
Dor de alma é coisa de gente grande forte. Engraçado é que tem gente que jura o contrário.
Existe dor de alma antiga, velha conhecida. Tão antiga e tão conhecida que permite barganha e chantagem. Tem dor de alma de tanto tipo... Passageira, furiosa, debochada, suicida, assassina. Quase todas previsíveis, mas inevitáveis.
Por isso mesmo é que a pior dor de alma é a inesperada, que vem sem culpas, sem indícios. Chega do nada e deixa a gente repetindo que não merecia.
—Morreu?! Morreu como? Acidente? Que brincadeira é essa? Ele estava aqui comigo uma hora atrás!
Dor de alma é náusea que não vira vômito. Quando vira, deixa de doer. Ou deixa de ser alma.